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domingo, 21 de agosto de 2011

Liberou ?


Domingo, 28 de novembro  de 2010 por Danuza Leão, para a Folha de S. Paulo
TUDO PODE SER interpretado, veja-se o caso da escolha da nova equipe econômica. Segundo os que entendem de tudo, se para o Banco Central for A, significa que os juros vão subir, se for B, que a gastança vai continuar -ou o contrário. Se Palocci aparece mais -ou não aparece-, a interpretação vem logo: ele vai para a Casa Civil, ou não vai mais.
Como o ser humano adora interpretar, imagine o prato cheio que foi a declaração do papa, dizendo que em condições específicas -por exemplo, um profissional do sexo que seja soropositivo- o uso de preservativo é permitido. Ora, se para tudo na vida existem várias interpretações, imagina nesse assunto.
Para começar, foi uma surpresa saber que a Igreja Católica aceita que exista a prostituição. Se, para ela, o sexo é só para procriar, como admitir profissionais -homens e mulheres- do sexo?
Não vamos esquecer que houve uma pequena confusão na tradução das declarações do papa; teria ele dito "garotos de programa" ou "prostitutas"? Então a Santa Madre Igreja admite também a existência de "garotos de programa"? Moderna, não?
Agora, às interpretações. E se não for um/uma profissional do sexo, mas um empresário/a, contaminado, que saia para namorar. Nessas condições, a Igreja aceita? Mas devem existir casos em que a pessoa tem uma suspeita, mas não a certeza de ter o vírus; se for um/a profissional, pode usar camisinha. Se não for, não pode -claro, já que é pecado transar. Difícil, essa Igreja.
Li ontem que, no mundo, 15 pessoas são infectadas por dia pelo HIV. Fiquei pensando: se o IBGE fizesse perguntas sobre a vida sexual de todos os habitantes do mundo, seria possível saber quantas relações sexuais acontecem a cada 24 horas.
Sendo a população em torno de 6 bilhões, vamos fazer uma continha rápida. Digamos que 1/3 sejam crianças, 1/3 idosos; sobram 2 bilhões de adultos. Supondo que, desses 2 bilhões, 100 mil sejam sexualmente ativos -portanto, 50 mil casais -, e que esses casais transem uma vez por mês.
Seriam quase 2.000 transas diárias, o que nem é tanto assim, mas não acredito que todas tenham a intenção de procriar. E não acredito, mas não acredito mesmo, que por mais religiosas que sejam as pessoas, na hora do desejo elas se contenham, lembrando que é pecado. Lamento, mas não dá.
"Em condições específicas", disse o papa; e existe condição mais específica do que o desejo? E o amor? São as duas condições mais específicas que existem, e é triste ver como a Igreja ainda encara o sexo: ou é para ter um filho, ou para evitar a morte. Para ser mais alegre e mais feliz, nem pensar.
Então, a pedofilia dos padres deveria mandá-los não para o inferno, mas para mil infernos, se isso fosse possível. Porque além do crime da pedofilia, eles estão abusando do poder que têm, levando risco de infecção para o garoto e ferrando com a cabeça dele para o resto da vida.
Acho que Bento 16, com aquela cara de antigo, está sendo o papa mais moderno que a Igreja jamais teve. Ele não precisa liberar geral. Mas se liberar o sexo entre as pessoas que se amam, merece ter uma longa vida para ver a volta do rebanho à Igreja.

Escala em Dubai


Domingo, 21 de novembro  de 2010 por Danuza Leão, para a Folha de S. Paulo

VIAJAR JÁ FOI FÁCIL - e muito confortável. Era assim: você ligava para a companhia de aviação, era atendida por um ser humano muito gentil, dizia para onde queria ir e em que data.
Não era preciso pesquisar preços, pois eram todos os mesmos. Você ia pegar a passagem na loja e já se sentia muito importante, pois não era, como agora, como um tíquete de supermercado: vinha num envelope de camurça. Se quisesse trocar a data da ida ou da volta, era só telefonar, quantas vezes fosse, e sem pagar um centavo a mais.
A viagem era longa, mas era um luxo: havia sempre alguém que ajudava você com a bagagem de mão, as comissárias de bordo eram lindas e gentilíssimas, e os passageiros ainda ganhavam uma caixa de chocolates suíços e uma caneta - ah, era bem bom.
Viagem tinha a ver com aventura. Quando chegava, você pegava um táxi e ia parando de hotel em hotel, vendo se tinha lugar - sempre tinha. Se estivesse em Paris e resolvesse fazer uma escapada rápida de fim de semana, ia direto para o aeroporto, sem precisar reservar, e conseguia. Se não tivesse lugar no avião para onde pretendia ir, mudava de direção, e tudo dava certo.
Afinal, se a ideia era ir para Londres e acabava parando em Roma, não chegava a ser uma tragédia. Adiava-se a volta sete, dez vezes, e as tragédias eram só duas: o excesso de peso (eram 20 quilos por pessoa) e a alfândega.
Era aquele choro na hora do check-in: "por favor, são só 19 quilos a mais, o avião não vai cair por causa disso, meu dinheiro acabou, por favor, por favor" - e sempre funcionava. Como a alfândega abria todas as malas, era preciso tirar todas as etiquetas de todas as camisetas; quem não fizesse isso tinha que pagar impostos. Duros tempos, mas era bem bom.
O mais seguro era levar travellers (em dólares), olha que coisa antiga. Era de praxe trazer na bagagem um potinho de mostarda de Dijon e dois ou três queijos, que faziam sempre grande sucesso com os amigos. Também se usava contar a viagem, mostrar fotos e programas de teatros e exposições, coisas que ninguém faz mais - acho. Em compensação, não havia milhas, nem cartões de crédito, nem euros, e de país em país se ia trocando de moeda.
Mas as coisas mudaram: outro dia, uma amiga me contou que estava indo. Disse o dia da ida, o da volta, o nome dos hotéis (se desistisse, uma diária seria cobrada), os restaurantes a que ia - já sabendo o que devia comer -, os concertos, shows, museus, tudo reservado pela internet e já pago no cartão.
Estava levando o notebook, para ficar on-line, o celular (mais o carregador e as tomadas para os diversos países) - o roaming já estava feito. Na agenda, com tantos compromissos, não sobrava uma mísera horinha para fazer o que há de melhor, quando se viaja, isto é: nada.
Mas tem mesmo de tudo: conheço uma moça que só viaja pela Emirates. Se quer ir para Paris, Londres ou Nova York, compra uma suíte - é, suíte no avião - na primeira classe, com armário para os casacos, minibar e TV de 23 polegadas com 600 canais, faz uma escala em Dubai e de lá toma outro avião que a leva para onde quer. É caro mas vale e, além disso, ela pensa no futuro: quem sabe não conhece um milionário na viagem?

PS: A Oi ainda não resolveu meu problema.

O preconceito ( ás avessas )


Domingo, 14 de novembro  de 2010 por Danuza Leão, para a Folha de S. Paulo


Me parece ultrapassado que a nova presidente queira um ministério com maior número de mulheres

HOMENS E MULHERES são pessoas; umas mais inteligentes, outras menos, algumas mais preparadas, outras nem tanto, mas está escrito na Declaração dos Direitos Humanos, de 1948, que somos todos iguais, independentemente de raça, credo etc. etc. -e sexo, claro.
Pensando nisso, me parece meio ultrapassado que nossa nova presidente queira fazer um ministério com maior número de mulheres, tanto quanto me soa estranho que exista uma Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres; para quê? Já se foi o tempo em que elas precisavam de alguém que lhes desse 'uma força', quando eram fraquinhas e indefesas.
Hoje são fortes o suficiente para comandar uma delegacia, pilotar um Boeing ou dirigir uma nação, e não precisam de um homem que passe a mão em suas cabeças para poderem existir. Só precisam deles para serem mais felizes.
As feministas do século passado queimaram seus sutiãs, lutaram e conseguiram: hoje têm todos os direitos, igualzinho a eles, mas se é verdade que o ministério de Dilma terá 1/3 de mulheres, só por serem mulheres, a presidente estará cometendo um erro e se mostrando muito antiquada.
O tempo passou, presidente; ministros devem ser escolhidos por suas capacidades -além de pertencerem a um dos 12 partidos da coligação, é claro-, não por serem homens, mulheres, brancos, amarelos ou negros.
Escolher um homem porque ele é homem, ou uma mulher por ela ser mulher, é preconceituoso, e o preconceito, qualquer que seja ele, deve ser evitado -além de ser crime.
A lei estipula uma cota de 30% de mulheres entre os candidatos de cada partido; mas e se todos forem homens, porque naquele ano as mulheres resolveram não entrar na política, acontece o quê? E se alguém inventar fundar o Partido Feminino do Brasil, só com mulheres, pode? E se for fundado um partido gay, pode? Nossa presidente não foi eleita por levantar a bandeira do feminismo, coisa dos anos 70.
A luta pela igualdade dos sexos foi grande e foi vitoriosa, por isso elas têm o dever de continuar lutando para não serem tratadas como 'mulherzinhas' e, sendo assim, jamais assumir um cargo -às vezes com pouca competência- só para provar que chegaram lá.
Será prudente também que a nova presidente, antes de fazer os convites, conheça seus méritos -além do currículo e da folha corrida-, para que o quesito amizade não influencie na escolha (o passado recente aconselha).
Se Dilma for também politicamente correta, talvez queira fazer um ministério idem; nesse caso, terá que nomear mulheres, homens, gays, negros, asiáticos, transexuais, índios, e mais o que exista por aí, em matéria de raças e sexos.
Aliás, se eu for à delegacia e disser que fui assaltada por três crioulos, será que pela Lei Afonso Arinos vou presa? E será que alguém, numa hora dessas, diz que foi assaltada por três afro-brasileiros?
E vamos combinar também que tanto o feminismo como o politicamente correto estão mais do que ultrapassados, e que se as mulheres lutaram tanto para serem iguais aos homens -e provaram que podem ser-, deveriam lutar também para mudar a regra da aposentadoria: mulheres aos 55 anos, homens aos 60. Apenas uma questão de coerência, e também de orgulho e brio, para mostrar que não precisamos nem de privilégios nem de favores.

Cenas de Ipanema


Domingo, 7 de novembro  de 2010 por Danuza Leão, para a Folha de S. Paulo

FOI CURIOSO ver Lula anunciar a grande novidade: que o governo vai ter a cara de Dilma; preferia ter ouvido isso da própria.
Não entendi por que ele vai levar a presidente eleita para viajar; para apresentá-la ao mundo, como uma filha inexperiente? Para tirar uma casquinha de sua popularidade?
Para aproveitar e no avião fazer a cabeça dela na escolha de sua equipe? Espero que Dilma dê boas razões para que eu lhe faça grandes elogios, mas está claro que, se a CPMF voltar, não será culpa dela, mas dos governadores. Para já, a eleição acabou, a vida voltou ao normal, vamos mudar de assunto.
Outro dia entrei numa farmácia na Visconde de Pirajá -são umas cinco em cada quarteirão- e dei de cara com uma freira. Levei um susto; era freira de verdade, vestida como tal, coisa que não via há anos.
Prestei atenção a seu hábito -é como se chama a roupa que elas usam. Uma roupa comprida, de algodão marrom; na cabeça, uma espécie de véu preto, e, cobrindo a testa, um tecido branco. Na cintura, uma corda, e nos pés uma sandália de couro cru, que não ficava nada a dever às mais lindas sandálias italianas dos anos 60.
No meio de mulheres de pernas e barrigas de fora, jeans apertadíssimos, tomara que caia, tudo numa profusão de estampas coloridas, me deu uma certa paz, ver aquela mulher tão chique -a combinação de marrom, preto e branco fazia toda a diferença. E lembrei de ouvir, quando criança, falar de meninas que tinham a "vocação", isto é, que pretendiam se tornar freiras.
Será que isso ainda existe? Será que passa pela cabeça de alguma adolescente ser noiva de Cristo? Lembrei de Madre Teresa de Calcutá, que usava um hábito branco, debruado de azul, e pensei que nesse momento tão difícil pelo qual passa a moda, se algum costureiro ousasse fazer uma coleção com a sobriedade e o bom gosto das roupas das religiosas, poderia ser um caminho, nesse universo tão perdido.
Voltando: o dia estava nublado, mas quente, e quando saí da farmácia, vi que se anunciava uma chuva. Parei na porta de uma loja e fiquei olhando as pessoas; foi quando vi um senhor carregando um guarda-chuva desses dobráveis. Andava devagar, olhando cuidadosamente para o chão, imagino que para não pisar num buraco ou tropeçar.
Sou de uma geração que achava os homens diferentes das mulheres. Mais fortes, mais corajosos -"homem não chora". Mas não aquele com o guarda-chuva. Antes de sair ele deve ter olhado o tempo pela janela, achou que podia chover, e levou o guarda-chuva. Um homem que faz isso é um homem medroso. Não covarde, medroso. Ele tem medo de se molhar, de talvez pegar uma gripe que pode se transformar em pneumonia.
Os jovens não usam guarda-chuva. Eles enfrentam as tempestades achando graça, e quando se trata de dois apaixonados, costumam às vezes se abrigar debaixo de uma marquise para se beijar. E -imagino- quando chegam, enquanto ele troca de camisa, ela enxuga os cabelos com uma toalha e vai para a cozinha fazer um chá, para esquentar os corpos. E os dois riem, falando da chuva, comentando que era uma chuva molhada -nem todas são-, felizes por já estar em casa.
Já aquele homem, não. Ele parecia ser só, a chuva não lhe trazia nenhuma alegria, nem mesmo um alívio porque o tempo ia refrescar, e quando chegasse em casa, não teria ninguém que lhe fizesse uma bebida quente, ou com quem pudesse -ou quisesse- falar.
A fragilidade masculina é sempre comovente, e, no caso, triste. Porque o medo daquele homem não era só da chuva, mas, também, da vida.